A Expressão na Dança do Ventre
Um dos maiores enclaves na dança do ventre é visível, logo aos primeiros momentos de uma apresentação: a expressão facial que a bailarina assume quando executa os movimentos.
Quantas vezes vemos bailarinas dançando inexpressivamente, independente de como se desenvolvem os ritmos, as paradas e retomadas, aberturas e grand finales. Sua técnica pode ser desenvolvida, mas não cativa seu público e seu espetáculo mais parece pura demonstração de agilidade corporal.
A música é, antes de tudo, uma manifestação de sentimento. O artista é o expert em expressar sentimentos, crenças e sensações. Quem dança tem que saber interpretar, a seu modo essa manifestação. Só que o movimento , sem a expressão facial condizente, denota amadorismo, tensão e insegurança para incorporar a música.
A bailarina pode ser ótima tecnicamente, mas se seu rosto não traduz emoção, sua dança fica comprometida. O público divaga e o espetáculo perde a força.
Esqueça os aplausos por enquanto. Seja realista e deixe de lado as fantasias acerca de seu conhecimento e experiência. O público vai apreciar isso ou não com o tempo. Tenha em mente a idéia de que somos eternas aprendizes.
Sua expressão deverá alterar-se ao longo do tempo, sempre buscando o equilíbrio.
Imagine uma dança onde você vai observar somente a expressão facial. Temos um gráfico para tentar ilustrar essa hipótese:
Repare que o ponto de equilíbrio música-dança-expressão facial com a música possui é o espaço rosa;
os opostos são os fatores que tornam a dança "caricata".
A harmonia visual da bailarina profissional é fator tão importante quanto a dança em sí.
Mas por que falar da expressão facial na dança do ventre ? Na verdade, esse aspecto é negligenciado pela maioria daquelas que aprendem, praticam ou passam a informação do aprendizado adiante. A dança do ventre no Brasil ainda está em estágio intermediário apesar de suas raizes por aqui terem sido plantadas há mais de trinta anos atrás . Em funçao desse período, percebemos que o público torna-se cada dia mais exigente, e apto a avaliar a dança visando a qualidade como condição essencial. Esse fator passará a ser uma exigência nos próximos anos.
Em poucas palavras: "quando você dança deve incorporar a música".
Aquelas que conseguem fazer esta fusão de forma "natural", conseguem interpretar como verdadeiras artistas sua arte. Assim, acordam no público, sentimentos adormecidos e oferecem aos expectadores um mundo encantador.. A presença de palco nada mais é do que a habilidade de coordenar sua técnica com a perfeita expressão ao dançar espallhando a divina energia da arte por todo o ambiente.
Experimente isto e receba a recompensa por seu esforço: olhos brilhantes e o sorriso que toda bailarina procura ao final de sua apresentação estarão lá esperando por você.
Técnica X Estética
"Dança Árabe é um espetáculo belíssimo para apreciar o encanto feminino, mas quanto trata-se de apresentações profissionais, devem ser observados dois fatores, que não passam despercebidos: estética e técnica."
Todas as mulheres que aprendem dança do ventre devem ter em mente que, uma vez iniciado o processo de aprendizado, não tem volta. Você parte para uma viagem:
- de encontro com sua beleza, (você vai achar muitos aspectos)
- seu lado inexplorado no que diz respeito ao charme, sensualidade e sensibilidade magnetismo feminino,
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externalização do carisma (aí a dúvida ... o carisma nasce com a pessoa ou adquire-se ?)
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sua capacidade de assimilação, sincronia e instrospecção com a música
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criatividade, iniciativa e dinamismo em tudo que diga respeito a melhorar seus aspectos pessoais.
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e como atenuar seus pontos fracos em questão visual.
Pois bem, não vamos entrar no mérito da questão de cada um dos tópicos acima. Que eles vão mexer com você em algum ponto do aprendizado, não tenha a menor dúvida; como disse é uma viagem ao encontro do seu "eu" "obscuro" ou "adormecido".
O que é importante salientar no entanto, é uma condição para quem tem intenção de buscar a profissionalização, isto é, ser bailarina de dança do ventre.
No oriente, onde o padrão de beleza é completamente diferente do ocidental, a questão da estética feminina não é colocada em primeiro plano, vale dizer, que os povos árabes, persas e turcos tem um padrão de beleza completamente diferente dos latinos.
Os anos de experiência com dança dentro da Khan el Khalili (desde1982), nos shows que presenciamos, colocam na dianteira um ponto muito importante, que vale ser lembrado como primeira pauta daquelas que desejam seguir carreira nessa arte:
"No Brasil, para ter sucesso com dança do ventre, você precisa ter bem definido que para ser uma bailarina 100% é necessário verificar 2 aspectos básicos:
1) 50% de técnica e perfeição na qualidade dos movimentos. Além de todo conhecimento teórico que você adquire com os anos de estudo (eu disse anos...) é necessário que seu corpo obedeça e transmita o sentimento que a música está expressando. Cada marcação deve ser precisa e transmitir sentimento. Seu rosto deve dizer o que você está sentindo ao dançar. A harmonia entre percussão e movimento deve não só causar interesse, mas causar impacto positivo e criativo. Seus primeiros 60 segundos em cena não podem denotar o que vai ser toda a sua apresentação.
2) 50% de apresentação estética, isto é, você deve saber que "é bela", confiar que seu aspecto visual não está chocando o público, mas sim causando momentos de inesquecível deleite. Não tenha falsas ilusões: seu visual é o que fala forte neste momento. Aparecem então seus atributos mais fortes (cada mulher, deve conhecer bem os seus, e procurar explorá-los). Quando faço menção em explorar seus atributos, não quero dizer apresenta-los de forma grosseira e vulgar. Eles devem aparecer como se você fosse uma "ninfa do paraíso", não uma "leoa das selvas". Aí entra a questão do choque, do discernimento da vulgaridade e da beleza propriamente ditas.
Resumindo: você precisa ter 50% de cada e esta balança não deve pender para nenhum dos lados, correndo o risco dos comentários do tipo: "dança muito, mas visualmente não dá" ou ainda "só é bonitinha, mas não dança nada... qualquer uma faria melhor".
Para se apresentar para alguns amigos pode funcionar a princípio, pelo sabor da novidade, mas para o público, que procura dança do ventre para assistir a um espetáculo de arte, você deve usar algo chamado: bom senso.
É ele quem define se seus 100% estão em harmonia. É ele quem diz a sensação que você irá causar com sua apresentação. É ele quem dá o sinal verde ou vermelho para você dizer que é uma bailarina de dança do ventre ou não; se está em condições de aparecer em público e fazer algo para ficar na história da vida das pessoas ou criar uma expectativa frustrante e tediosa em seu público. Se seu bom senso falhar, você corre o risco dos comentários pejorativos. Não tenha dúvida ... o público fala mesmo... você não vai ser uma exceção.
Seja como for... ser bailarina profissional envolve um esforço e uma determinação diferenciadas. Sempre você está aprendendo, por mais que diga que já sabe; sempre precisa exercitar e tenha a certeza... não é "como andar de bicicleta". Parou de dançar .... para de se desenvolver, e regride.
Este não é um artigo para gerar controvérsias, para você discar 0900 e dizer que "sim" ou que "não", ou mesmo para dizer que "com você não funciona assim, é diferente". Trata-se de um depoimento de anos de experiência com dança e público, a uma distância de no máximo 4 metros, onde o "feeling" adquirido permite ler os lábios e até os pensamentos daqueles que estão apreciando uma bailarina. A opinião formada do público surge assim que você sai de cena: "Que espetáculo !", "Mulher maravilhosa, tudo no lugar certo!" ou "Pensei que fosse mais,... ela é fraquinha!", "Precisa de uma dieta".
Como aparecer então? Eu sugeriria que "aos poucos". Primeiro dance para quem gosta de você e peça uma opinião sincera. Segundo faça o mesmo para alguns amigos e em terceiro procure dançar para quem entende (à sós, ... e prepare-se para ouvir com humildade - algo que se costuma perder depois de ouvir alguns aplausos). Só aí você terá uma avaliação se está trazendo a "magia das 1001 Noites" ou causando um "terremoto apocalíptico".
Fora isso, treinar na frente do espelho muitas, muitas e muitas vezes. Começar a balancear sua alimentação, primar pelo cuidado com suas roupas (uma lantejoula a menos num ponto estratégico, um fiozinho desfiado, uma bijuteria descolorida com o uso,... fazem diferença sim - lembre-se: bom senso), e um fator de muita importância: começar a praticar a habilidade de relacionar-se bem socialmente, no seu meio e com o seu público. Existe um ditado árabe que diz: "Aquele que fala mal dos outros na tua presença, falará mal de tí na tua ausência".
Curiosamente, nesta arte você adquire fãs com muita rapidez, e com a mesma facilidade, se não tiver bons princípios poderá perdê-los. Traços de caráter, fazem muita diferença numa bailarina de dança do ventre.
Foi-se o tempo de pensar que "o Brasil ainda é leigo em dança do ventre". Muita gente já sabe discernir uma boa apresentação e exige isso. Mas o que é mais importante.... todos, sem exceção, ficam "de olho nos 100%" acima.
A Típica Estrutura de um Show
O nome dança do ventre parece ser uma troca de nome para esta arte tradicional apesar de ser amplamente utilizado hoje em dia.
Em árabe, o nome tradicional de dança é Raks El Shark, que traduzido quer dizer Dança do Leste ou Dança Oriental.
É uma arte para ser apresentada no palco e com uma orquestra de música ao vivo. Em sua forma ideal, seria apresentada sempre contando com músicos de qualidade e o grupo compreenderia uma gama de instrumentos variados; na sessão de percussão teríamos uma variedade de derback, daff, violino, órgão elétrico, rabab, alaúde, flauta, e até mesmo guitarra elétrica.
Uma típica rotina de dança oriental consiste em pequenos trechos de música, variando em ritmo e melodia mas formando um conjunto coeso e obedecendo a uma estrutura estabelecida.
Esta estrutura pode variar um pouco de rotina para a rotina mas é bastante consistente no uso de ritmos específicos para diferentes partes da dança e para os modelos de transições entre essas partes.
Vamos ver como seria a estrutura tradicional:
A dançarina entra no palco com um ritmo 2/4 que pode ser Malfouf, por exemplo, deslizando com o seu véu, acima da cabeça, utilizando espaço e conhecendo sua disponibilidade para a dança, apresentando a si própria e cumprimentando o público. Seu deslocamento pode ser somente andando ou utilizando passos ao mesmo tempo.
Se a música é mais complicada ela pode coreografar alguns movimentos com véus, giros e acentos. A sessão de Malfouf termina depois de alguns giros e a preparação da bailarina através de fortes acentos com o quadril que assinalam a transição desse ritmo para alegre maksoum. Agora é o momento da dançarina mostrar o que pode fazer com seu quadril, ela alterna movimentos estacionários com deslocamentos acentuados e cheios de vida. O temperamento da música muda abruptamente quando a melodia do maksoum termina e é substituída por um único instrumento que inicia um lamentoso solo ou taksim. Agora a bailarina muda seus movimentos para vagarosas ondulações e arredondadas linhas serpenteantes, alternando-os com pequenas trepidações e isolamentos, tornando a dança altamente entorpecedora. Esta é a parte enfeitiçante e sensual da dança, cheia de curvas, tremidos e ondulações. A próxima parte é chamada de taksim beledi e desabrocha para fora do taksim gradualmente construindo uma tensão dinâmica entre o padrão de perguntas e respostas entre o instrumento responsável pelo taksim e a percussão. A dançarina reflete as pontuações musicais através de pronunciados isolamentos corporais. Gradualmente os acentos musicais progridem para um forte e quente ritmo baladi que depois se transforma num saltitante e rápido falahi 2/4.
Baladi e falahi podem se alternar para a frente e para trás até finalizar com falahi que desembocará no solo de percussão. Para muitas pessoas o solo de percussão é a parte mais excitante da rotina. A bailarina então abandona todas as paradas e realmente começa a suar na medida em que mostra todo o poder de seu quadril com acentos e isolamentos cada vez mais fortes e expressivos.
Por último vem a finalização, seguida de uma repetição do tema de abertura com a qual ela se despede do público com um floreio.
Este é um exemplo muito simplificado da rotina de um show que pode sofrer diversas variações ao sabor dos músicos e da bailarina responsável por ele. O ritmo de abertura pode ser um masmoudi, por exemplo ou baladi; uma entrada com malfouf pode evoluir imediatamente para um taksim; ou um ritmo turco chiftetelli pode entrar no lugar deste solo.
Uma única canção pode conter diversos ritmos diferente seguidos diferentes um do outro para depois retornar à estrutura inicial. Uma longa rotina pode conter diversos takisims-baladi e falahi entremeados dentro das melodias mais rápidas, até finalizar no taksim-baladi que propicia o solo de percussão final. Às vezes nem há um solo de percussão ao final, nada é obrigatório.
Não importa o modelo; as muitas mudanças em ritmo, melodia, tempo e instrumentos oferecem abundando material para a dançarina mostras sua especialidade e interpretação dessa complexa e multifacetada forma de dança.
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